O PRAZER DE OUVIR JAZZ
Quarta-feira, 7 Maio - 2008 por Manuel A. Fernandes
“O jazz não é uma música simples que entre no ouvido rapidamente. A sua complexidade, só é possível porque é tocada por músicos de eleição, exige que se ouça, e ouça, e ouça… até se tornar familiar, e, à medida que isso acontece, o prazer de a ouvir aumenta.”

Paul Bley, Solo in Mondsee
ECM Records, 2007
Pedro Ferrão
2008-05-07
Comprei este cd de música jazz, uma actuação a solo de piano gravada em Abril de 2001, na Áustria, porque foi considerado pela revista Jazz.pt, no seu nº 16, de Fevereiro de 2008, o melhor cd de jazz de 2007, no mercado português, a partir das escolhas de quinze críticos. Apesar de hoje termos acesso ao fantástico acervo do Youtube, onde se podem ver e ouvir excertos de concertos que ficaram famosos na história do jazz, e de a Amazon.com nos deixar ouvir excertos das faixas musicais da maior parte dos discos ali à venda, a verdade é que este método de acompanhar algumas publicações de referência tem dado excelentes resultados. No caso da Jazz.pt já lá vão três anos de bons conselhos. Paul Bley nasceu em 1932, no Canadá. Ao longo da sua carreira editou, segundo o site allaboutjazz, perto de uma centena de cd’s, gravados na companhia de quatro dezenas de músicos de topo da cena do jazz, que vão do free-jazz à ‘terceira corrente’, como é chamada a fusão jazz-clássica. Não seria difícil, portanto, incluí-lo numa discografia básica dos vinte pianistas de jazz predilectos. Como muitos cd’s de jazz, em especial de piano solo, este é um disco de improvisações. Melódico e rico de recursos estilísticos, pede uma audição atenta para que nos deixemos invadir pelo rendilhado dos sons e silêncios, numa fluidez rítmica ao mesmo tempo intensa e lírica, ouvindo uma e outra vez até que comece a soar na memória o prazer do reconhecimento. O jazz não é uma música simples que entre no ouvido rapidamente. A sua complexidade, só é possível porque é tocada por músicos de eleição, exigindo que se ouça, e ouça, e ouça… até se tornar familiar. E à medida que isso acontece, o prazer de a ouvir aumenta. O jazz tocado hoje, como é o caso deste cd, é mais complexo do que há 50 anos atrás, quando decorreu uma época extraordinária de criação musical - anos cinquenta e sessenta. Por essa razão muitas pessoas começam por ouvir gravações dessa época, fazendo o percurso de evolução do próprio jazz até à actualidade. Lembro-me de ter começado pela discografia de Louis Armstrong, Duke Ellington, Miles Davis, John Coltrane… quando ainda era difícil encontrar cd’s de jazz em Portugal: desde então vi fechar a discoteca Roma, junto ao Bolhão, no Porto, vi abrirem as lojas Fnac com uma excelente oferta mas que diminui todos os anos, e comecei, enfim, a comprar via net e a frequentar os concertos da Casa da Música, do Jazz no Parque em Serralves, do Guimarães Jazz. Assim que, agora, sou capaz de retirar grande prazer da audição de obras como esta. Se começasse hoje, seria provavelmente ouvindo o Youtube, e é por isso que sugiro aí uma pesquisa de vídeos clássicos de jazz e, já agora, de Paul Bley.
Pedro Ferrão, Professor Universitário.


