DUAS ACHAS PARA A QUEIMA
Domingo, 27 Abril - 2008 por Tiago Mendes
Qual ruína de um sistema autocrático, da religiosa obsessão das leis se mergulhou rapidamente na anarquia.
Por: Tiago Mendes
1ª - Tirar um curso é um dos primeiros grandes objectivos ou sonhos do indivíduo da sociedade da Educação igualitária. Terminar o Ensino Secundário, vencer exames nacionais e, em grande parte dos casos, deixar a terra natal são sacrifícios justificados pela tão ambicionada entrada no “mundo universitário”.
A praxe é a anfitriã. Polémica, é por muitos considerada física e psicologicamente dura, humilhante e frustrante. Por tal, comissões e conselhos se criam no sentido de fazer respeitar o ideal e a credibilidade do ritual de inserção. Apenas a mobília da casa tem possibilidade de participar nessa regulação. São criadas leis, regras, normas e decretos para que o espírito académico seja mantido e, necessariamente, respeitado por todos.
Não só na praxe as regras são impostas. Chegado ao fim da licenciatura, o estudante cumpre o protocolo de celebração do curso cumprido. Protocolo esse determinado de forma despótica, às vezes pouco esclarecida. As regras são ditadas por um círculo fechado, onde o poder é justificado pela longevidade. Parece contraditório que na universidade, um suposto sistema meritocrático, haja leis formuladas por um de sistema ditatorial, fechado em si…
2ª - Vários foram os alunos que, ao fim de três anos, se viram a festejar o termo do curso. Podia ter durado mais, mas foram três anos. Bolonha tem destas coisas. Concluído com sucesso, este triénio dá direito ao grau de licenciado, tal como qualquer outro curso de quatro ou cinco anos. No entanto, o Conselho de Veteranos decretou que os finalistas de Bolonha apenas poderiam ostentar cartola e bengala (símbolo da licenciatura terminada) no final do 2º ciclo.
Há quem diga que um curso de três anos equivale a um bacharelato e que, por isso, não tem tanto valor como os antigos, de quatro ou cinco anos. Porém, há o outro lado, com o seu quê de sarcástico. Se apenas com o 2º ciclo terminado, ao cabo de cinco anos, os cursos de Bolonha são considerados finalistas, não será também injusto para estes que haja outros considerados igualmente finalistas, apenas com quatro anos de percurso? Se três anos equivalem a um bacharelato e cinco a uma licenciatura, presume-se que quatro sejam um híbrido, ou coisa nenhuma. Para além disso, se o 2º ciclo é opcional, é natural que os caminhos dos estudantes se separem ao fim de três anos. É no fim desse período que o grupo, com quem se partilhou a vida académica, pretenderá legitimamente festejar em conjunto. De que servirá celebrar no final do 2º ciclo, quando muitos já estão no mercado de trabalho e, em simultâneo, a ter aulas com pessoas completamente diferentes, com as quais não tem a mesma convivência?
Bolonha veio adaptar ou aproximar os cursos à escala europeia e essa é uma realidade que acata revoluções que vão para além das estruturas internas dos cursos. Os rituais académicos terão igualmente de ser adaptados às novas exigências. Compreende-se que o Conselho de Veteranos quisesse proceder a uma reformulação que criasse um novo sistema, rompendo com as tradições. Mas regras são regras e se as fazem é para que sejam cumpridas e para que alguém as faça cumprir. No entanto, impera a confusão.
Na Queima das Fitas, o Venerável Ancião foi chamado. Reclamava-se a presença da autoridade máxima para se pronunciar sobre o rito que os finalistas de Psicologia haveriam de cumprir… Faltou à segunda chamada. “Façam uma coisa qualquer, com imaginação”, foi-lhes dito. Seguiu-se Ciências da Comunicação, dividido entre o respeito e a transgressão da regra da cabeça e mãos vazias… À frente, no palco, uma tarja repudiava a igualdade entre Bolonha e o modelo antigo. Qual ruína de um sistema autocrático, da religiosa obsessão das leis se mergulhou rapidamente na anarquia.
Assim foi a Queima, assim vai o espírito académico na UTAD…



Antes de mais gostaria de dar os meus parabéns ao Tiago pelo belíssimo artigo que transmite na integra o que se passou nesta Queima. O teimoso Venerável (?) Ancião abusou do poder que lhe é concedido por ser o aluno da Universidade a demorar mais tempo a concluir o seu curso (curioso poder esse, quem mais parece uma limitação) e talvez libertando a inveja para os que conseguem acabar as licenciaturas no tempo correspondente, fez com que a anarquia reinasse tanto na tarde de Queima das Fitas como no Cortejo. É o que dá conceder-se poder a quem tenta impor as suas leis impondo respeito com o seu arcabouço, pondo de lado o bom-senso…
De qualquer forma fizemos a festa à nossa maneira, Parabéns a todos os Finalistas de 2008!
Na nossa semana mais especial, aquela em que demos um maior valor por tudo o que vivemos nestes três anos, alguém, que esse sim se pensa como sendo superior ou mais “especial” que aqueles que atingiram os seus objectivos no tempo previsto, achou por bem tentar estragar-nos os nossos momentos de Queima das Fitas e do Cortejo…para nós foi indiferente apesar de ao mencionar o nome dos nossos cursos no papel ridículo que distribuiu incomodou muitos pais que assistiam a esse momento… na minha opinião, o pior foi o facto de serem cobardes e nem coragem tiveram para assinar o tão polémico papel! Por isto, penso que nós,alunos dos cursos Ciências da Comunicação e Genética e Biotecnologia deveríamos mostrar à cidade o porquê de tantos papeis espalhados na rua… e sim, nós não somos cobardes ao ponto de não assinar uma ideia que defendemos!
Quem dera a nós ficarmos todos juntos mais dois anos…se isso não é possível, porque não acabarmos esta etapa de LICENCIATURA como sempre sonhámos? De cartola e bengala…Acho que foi sempre o sonho de qualquer estudante…
Sinceramente, tenho pena de quem viu o momento especial da Queima ser “estragado” pelo facto de não saberem o que fazer com o objecto tão desejado pelo Conselho de Veteranos…
Nós só podemos dizer: temos muito orgulho em ter agido como agimos…e não, não estamos a enganar ninguém…
Por fim,gostaria de dar os meus parabéns pelo artigo que foi escrito!como o Luís afirmou,sem dúvida que transmitiu bem o que aconteceu nesta Semana Académica!
A UTAD será sempre nossa! Parabéns finalistas
Boas,
Em relação ao artigo do Tiago, há que tirar o chapéu (ou cartola, se desejarem).
Descreve fielmente aquilo que é e foi o percurso académico, sem descurar a confusão gerada pela época de transição que o sistema de Ensino Superior vive e que tanta polémica - mais procurada do que necessária - gerou.
Feliz, ou infelizmente (só a história poderá concluir) entramos na Universidade na fase de acção do Processo de Bolonha, e isso gerou confusão nas estruturas de curso, no planeamento de licenciaturas, e na qualificação das mesmas.
Bolonha que vinha simplificar o Sistema de Ensino Superior, uniformizando-o com a restante Europa acabou por se revelar um erro de casting. Pelo menos por enquanto.
Quanto ao essencial do que me trás cá, sobre a polémica gerada em volta do uso de cartola e bengala na tarde da Queima das Fitas, é simples o que tenho a dizer: Eu não usei, pois não era permitido.
A Queima das Fitas não é uma tradição gerada pela Universidade a quem pagamos as propinas.
É uma tradição orientada e mediada por quem de direito assegurou toda a logistica que descobrimos naquela tarde: O Conselho de Veteranos, com o apoio do da AAUTAD e do Municipio (neste caso). Eles são soberanos na imposição das ditas regras da cartola, bengala, canudo, whatever.. Cabe-nos obedecer. Quem não concorda, manifeste-se - tal como alguns já o fizeram.
No entanto, as regras são feitas para se cumprir. Talvez não caia bem este meu tom tão peremptório, mas se o Governo faz leis, nós obedecemos. E eu também preferia pagar menos 10% de IVA.
Um aparte: Se eu quiser seguir o 2º ciclo nesta Academia, e depois enquanto trabalhar, tirar outra licenciatura, e o dito 2º ciclo, ou enveredar por um Doutoramento, e atingir as tais 9 ou 10, ou 11 ou 15 matriculas (sim, porque tenho de me matricular para frequentar as aulas) serei assim tão má pessoa, ao ponto de ser considerado um Bicho do Mato? É que se assim for, prefiro deixar já de estudar. Não quero que tenham medo das minhas matriculas.