PROPAGANDA & JORNALISMO
Domingo, 9 Março - 2008 por Manuel A. Fernandes
OPINIÃO

Manuel A. Fernandes
Estudante
fernandesmanuel87@gmail.com
Se decidirem recorrer a uma autoridade intelectual e procurarem no dicionário de Língua portuguesa as definições de Jornalismo e Propaganda, provavelmente encontrarão definições ligeiramente diferentes uma da outra: para propaganda como acto ou efeito de propagar ou difundir um ideia, opinião ou doutrina; para jornalismo como forma de expressão que caracteriza os meios de comunicação social ou conjunto de meios de difusão de informação. E isto vem a propósito de quê, perguntará o atento leitor.
Surge, pela dificuldade em conceber, hoje em dia nos media, certos critérios e metodologias com que se avançam para questões de inegável relevância social e que requerem de todas as forças civis (comunicação social incluída) a maior atenção e seriedade.
Não se percebe como, num espaço que se quer de ampla discussão com oratórias heterodoxas de parte a parte, as televisões que cobriam a greve dos professores, tenham alimentado a histeria contestatária e convidado a Ministra da Educação a responder a certas perguntas feitas por transeuntes, do tipo: “Porque é que não se demite? ou “Percebe alguma coisa de Educação?”
Não se percebe de igual forma, que entrevistas importantes e fiscalizadoras da ordem pública, como as da “Grande Reportagem” sejam conduzidas com tanta ligeireza, num ritmo frouxo e sem rasgos, do estilo late night show.
Ao ignorar algumas das regras básicas adjudicadas à sua prática profissional – a investigação; pesquisa; inovação – a classe jornalística contribui para o circo colectivo que se estabeleceu na baixa Lisboeta e para a projecção mediática de políticos engenhosos e demagógicos.
Ao invés de dissecarem os casos com explicações científicas, quadros de referência ou retrospectivas gerais preferem brindar-nos com perguntas de domínio público ou acusações passageiras que nada de novo trazem para o escrutínio político dos temas.
Ao veicular insultos gratuitos e teorias pedantes, os órgãos de comunicação social vêem substituido o seu papel de mediador social pelo de propaganda política
E aí, é que as definições vistas e revistas nos dicionários, enciclopédias e “wikipédias” começam a aproximar-se, de um ponto de vista prático. E a fronteira ténue entre propaganda e informação começa a esmorecer em nome do absolutismo.
• De Espanha, vem outro exemplo nada agradável de ineficiência jornalística timbrada por mais um caso de promiscuidade entre informação e propaganda.
Com a campanha a decorrer e munidos com as mais modernas tecnologias de comunicação de massas, - com cyberinqueritos, videochamadas e sms’s - os partidos maioritários decidiram filtrar a informação dada aos periodistas afastando mesmo alguns, dos seus comícios. O corolário de todo este Big Brother político, foi o fraudulento e vergonhoso debate que levou os dois potenciais candidatos a exporem as suas propostas finais a “nuestros hermanos”.
Equilibrando este debate estava uma marioneta tímida e acanhada, perdida no espaço e no tempo, a quem chamavam de jornalista. Esta indispensável figura limitava-se a controlar o tempo e a comunicar ao staff que os acompanhava, do nível de água presente nos “mediáticos copos”. Tudo estava meticulosamente preparado.
Não deixa de ser irónico que meses depois dos protestos (contem-nos pelos dedos) ao Ministro Santos Silva – que tutela a comunicação social – pelo novo enquadramento legal do estatuto do jornalista, vejamos mesmo aqui ao lado tratamentos tão desprestigiantes e imberbes à nobre arte de noticiar e difundir informação chocando pelo total descaramento com que se fazem.
O político transforma-se em jornalista, o jornalista em moço de recados e o órgão de comunicação social num mimetismo de estilo afiliado, tipo “Avante”.
No final, o comum cidadão é que sofre as consequências, posteriormente arrependendo-se, porque foi enganado com a mais pura e amadora propaganda política.
Já lá diz o povo: “De Espanha nem bom vento nem bom casamento”.
Desconhecia-se era este lado negro do jornalismo
NOTA: Os artigos de opinião presentes no informativo são da total responsabilidade dos seus autores escusando-se O INFORMATIVO e a AAUTAD de qualquer responsabilidade sobre o mesmos.



[...] no Informativo, [...]
[...] no Informativo, [...]
Gostei deste texto de opinião.
Mas porque é assim? A qualidade do jornalismo é certamente função da cultura e maturidade da sociedade, mas entretanto outras questões podem ser colocadas: por exemplo, sobre a qualidade da formação dos profissionais ou a diversidade de propostas dos media. Quanto a este segundo ponto seria interessante uma comparação entre a televisão, a imprensa escrita e os media digitais.
Penso que há muita investigação de fundo a fazer sobre o jornalismo em termos sociológicos, nomeadamente em Portugal.